sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ruralistas: os novos senhores de escravos


Iriny Lopes

A tentativa de criminalização do MST por parte de ruralistas não é recente. Uma liderança sem terra do Espírito Santo costuma dizer que para os latifundiários “pior do que pobre é pobre organizado”. Essa é a história do escravismo reprisada num moto-contínuo desde o Brasil colonial.
Os sem terra de hoje são os negros do passado (e do presente também). Os assentamentos são os quilombos que os senhores de engenho da atualidade pretendem dizimar, usando, como outrora, forças policiais, políticas, judiciárias, além do aparato midiático. Só isso justifica a última investida da CNA contra o MST, ao encomendar ao Ibope uma pesquisa deliberadamente direcionada e com amostragem frágil, para demonstrar o fracasso da reforma agrária.
Nenhum pesquisador mais atento consideraria significativo generalizar a realidade de mais de oito mil assentamentos, onde vivem 870 mil famílias, através de um levantamento feito em apenas nove assentamentos, envolvendo mil famílias. Isso significa 0,1% do total. Um dos locais escolhidos pela CNA/Ibope é um assentamento da década de 70, dentro do Projeto Integrado de Colonização, portanto, da ditadura militar, e que já está incorporado à região metropolitana de Recife (PE). É curioso que tenha sido escolhido um exemplo que não pode sequer ser considerado assentamento. Esse é apenas um dos fatos questionáveis nesse trabalho.

É no mínimo desonesto querer analisar a Reforma Agrária sob a ótica do capitalismo e colocar como parâmetro de produtividade o agronegócio que a CNA defende. Reforma Agrária para os sem terra, assim como para quilombolas e índios (igualmente vítimas da invasão de terras, da grilagem desmedida dos grandes negócios), não é apenas ocupação territorial. É questão de vida, de cidadania, de segurança alimentar, de cultura e história de um povo.

Em 1988, a sociedade brasileira, calada e oprimida por um regime militar que durou duas décadas, foi às ruas e exigiu que os parlamentares constituintes garantissem na lei máxima do país direitos negados há mais de 500 anos por uma elite que continua, como antes, voraz, violenta e, para ser redundante, antidemocrática. A Constituição de 88 é o retrato do que nós brasileiros consideramos o mínimo de reparação. Terras devolutas, griladas, improdutivas devem ser, necessariamente, destinadas à Reforma Agrária. Comunidades tradicionais, como quilombolas e indígenas têm direito ao reconhecimento de suas áreas.

Em qualquer lugar do mundo lei é para ser cumprida. No Brasil, desde a invasão portuguesa, existe para ser “interpretada” e aplicada conforme o interesse de latifundiários, dos grandes projetos, da elite, com anuência do Judiciário. Um exemplo claríssimo é o da transnacional de sucos Cutrale, em São Paulo, cujo tratamento privilegiado fica evidente nas imagens que a TV repetiu exaustivamente, de sem terras destruindo pés de laranja.

A Comissão Pastoral da Terra lembra que a área invadida pela multinacional faz parte de um complexo de 30 mil hectares divididos em várias fazendas e que pertencem à União. “A fazenda Capim, com mais de 2,7 mil hectares, foi grilada pela Sucocítrico Cutrale” há quase cinco anos, sabendo que se tratava de invasão de terra pública.

Diz a CPT: “a ação dos sem terra tinha intenção de chamar a atenção para o fato de uma terra pública ter sido grilada por uma grande empresa e pressionar o Judiciário, já que, há anos, o Incra entrou com ação para ser imitido na posse destas terras que são da União. As primeiras ocupações na região aconteceram em 1995. Passados mais de 10 anos, algumas áreas foram arrecadadas e hoje são assentamentos. A maioria das terras, porém, ainda está nas mãos de grandes grupos econômicos”.

Quem foi criminoso nessa história: a multinacional que invadiu deliberadamente uma área pública, contando que terá uma regularização fundiária a seu favor, ou 450 famílias que aguardam há mais de cinco anos, acampadas em lonas na beira de estrada, debaixo de sol e chuva, que o governo e o Judiciário cumpram a Constituição e destinem as terras para reforma agrária?

Temos no Espírito Santo situação semelhante com a Fazenda Ipiranga, em Ponto Belo. Há nove anos, as famílias esperam acampadas pela resolução do caso. O processo já concluiu pela destinação da área para fins de Reforma Agrária, faltando apenas uma assinatura para conclusão. Reconhecer direitos significa efetivá-los na prática.

Os ataques do que o MST tem sido vítima nos últimos anos não é gratuito. A criminalização faz parte de uma estratégia para dizimar resistências.

O que é crime neste país, cuja lei existe para ser ignorada pelo próprio Judiciário: 1% de todos os proprietários controlarem 46% das terras (cerca de 98 milhões de hectares), ou mantermos durante décadas 130 mil famílias brasileiras (um número que aumenta conforme a curva da desigualdade) acampadas à beira da estrada, à espera de um pedaço de terra para plantar e sobreviver?

Esse parâmetro cruel e desigual faz com que o país, a despeito dos avanços sociais do governo Lula, não consiga reverter sua sina, a hereditariedade, as sesmarias de antigamente e suas violências diárias contra os pobres desse lugar.

Não são esses poucos latifundiários que colocam alimento na mesa do brasileiro. Isso, o Censo agropecuário de 2006, divulgado recentemente, revelou. A agricultura familiar (na qual se inclui assentamentos), embora ocupe apenas 24,3% da área total dos estabelecimentos agropecuários, é responsável por 40% do Valor Bruto da Produção gerado. E é ela também quem mais emprega: é responsável por 75% da mão-de-obra no campo.

O Censo nos diz ainda algo que devemos analisar com a responsabilidade que a nossa função pública exige: o Brasil é o país com maior concentração de terras do planeta. Tanta desigualdade é, por si mesma, uma violência que nós parlamentares não podemos assistir passivamente.

E aqui evoco a memória do amigo, companheiro camponês Adão Pretto, que como deputado federal defendeu durante anos os sem terra dos ataques da imensa bancada ruralista, que queria, inclusive, classificar o MST como entidade terrorista, na CPMI da Terra.

Adão era um, mas quando defendia seu povo parecia um exército. Como se centenas de ancestrais estivessem a lhe dar força necessária para encarar a maior bancada do Congresso. Meu querido companheiro se foi nesse início de ano. Adão não está mais aqui, mas a sua luta não morreu. E é em nome dela que conclamo todos os companheiros de esquerda do Legislativo, àqueles que não toleram a injustiça, a desigualdade, que não conseguem assistir indiferentes a fome e a miséria de um povo, construídas pelos lucros das grandes empresas e dos latifúndios, que levantem a voz contra a criminalização dos movimentos sociais. Porque eles são maioria de direito e de fato nesse país. E é em nome deles e em memória de Adão Pretto que eu respondo aos que nos julgam distantes da luta: “presente”.

*Iriny Lopes é deputada federal (PT-ES), integrante das comissões de Direitos Humanos e Minorias e de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Gangue contratada por Roseana Sarney provoca pânico no sindicato dos bancários


Comandados pela presidente da Federação dos Estudantes do Maranhão, Ana Paula Ferreira Ribeiro, cerca de 15 “estudantes”, a maioria nomeada por Roberto Costa na Secretaria de Esportes e Juventude, resolveram tumultuar o lançamento do livro Honoráveis Bandidos, na noite desta quarta-feira no Sindicato dos Bancários, jogando ovos e até uma torta para atingir os jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano, autor e co-autor do livro, que traça a tortuosa trajetória do senador José Sarney.
O grupo ainda gritava palavras de ordem e jogava para cima uma cartilha apócrifa com o título “A Navalhada Bandida”, com matérias sobre a operação Navalha, realizada pela Polícia Federal.
A provocação dos estudantes em momento algum pode ser confundida como manifestação democrática, como tentaram fazer entender. Chegaram sem se fazer notar e ocupando uma lateral do auditório do sindicato completamente lotado, de uma hora para outra, quando Mylton Severiano falava sobre o livro, começaram a gritar e jogar ovos e a dita torta.
A reação foi imediata e começou um grande tumulto, com as pessoas entrando em pânico, querendo sair a todo custo do pequeno auditório.
O ex-governador Jackson Lago e a esposa, Clay Lago, estavam presentes na hora da confusão.
Depois de devidamente expulsos, os “estudantes” ainda foram para a polícia registrar queixas como vítimas. Uma viatura da Polícia Militar foi ao Sindicato em busca de supostos reféns, frutos da versão apresentada no Plantão Central da Beira Mar.
Em meio ao vandalismo, a comandante da tropa, Ana Paula Ferreira Ribeiro, esqueceu sua bolsa com todos os seus documentos, que foi recolhida pelo deputado Domingos Dutra, e depois entregue ao delegado Tarcísio de Jesus Fonseca.
Os organizadores do lançamento do livro e o Sindicato dos Bancários também apresentaram queixas contra os estudantes.
Uma porta de vidro e várias cadeiras foram quebradas. Um inquérito policial será aberto no 1º DP para investigar o caso.
Não dá para compreender esse triste episódio, onde um grupo de apenas 15 estudantes resolve afrontar um auditório lotado, a não ser para provocar e depois sair como vítima diante da esperada reação dos agredidos.
Um prato cheio para o poderoso sistema de comunicação da família Sarney, que na mesma hora já estampava em um blog do i-mirante a versão completamente deturpada do episódio.
O pior em tudo isso, é que a comandante do grupo é cargo em comissão na Secretaria de Esportes e Juventude.
Será que é para realizar esse tipo de serviço que ela é paga com dinheiro público ?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Lançamento de Honoráveis bandidos em São Luís



O livro mais polêmico escrito nos últimos anos no Brasil será lançado em São Luís no dia quatro de novembro, na próxima quarta-feira, às 19h00, no auditório do Sindicato dos Bancários, na Rua do Sol n.° 513, no centro da cidade.

O nome do livro é “Honoráveis Bandidos – Um retrato do Brasil na era Sarney”, escrito pelos jornalistas Palmério Dória e Mylton Severiano.

Pela primeira vez o livro HB conta a história secreta do surgimento, enriquecimento e tomada de poder regional pela família Sarney, no Maranhão, e o controle quase total, do Senado Federal, pelo patriarca que virou presidente da República por acaso, transformou o Maranhão em quintal de sua casa e beneficiou amigos e parentes.

Dória também escreveu em 2002 o livro “A candidata que virou picolé”, sobre a escandalosa retirada da candidatura de Roseana Sarney da corrida sucessória de Fernando Henrique Cardoso motivada pela apreensão de R$ 1.340.000,00 pela Polícia Federal, nos cofres da empresa Lunus, de propriedade de Roseana e seu marido Jorge Murad, em março de 2002.

Honoráveis Bandidos é um livro arrasador, na mesma linha de “Memórias das Trevas’, que tinha o também senador Antonio Carlos Magalhães como personagem e vendeu mais de 80 mil exemplares no Brasil quando foi lançado.

O primeiro lançamento de HB aconteceu no dia 24 de setembro em São Paulo e na semana seguinte HB já apareceu em nono lugar na lista de livros de não ficção mais vendidos do país, publicada semanalmente pela revista Veja. Na semana seguinte já ocupava o sexto lugar na lista dos livros mais vendidos.

Na relação da revista Veja desta semana, HB é o quinto mais vendido do país e na revista Época, que já está nas bancas, HB também ocupa o quinto lugar entre os livros mais vendidos do Brasil.

Nos cadernos de cultura publicados ontem, sábado, 31 de outubro de 2009, pelos jornais “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, “Honoráveis Bandidos” aparece em 6.° e 7.° lugares respectivamente.

HB foi publicado em forma de brochura pela Geração Editorial e tem 208 páginas. A venda do livro de Dória na capital maranhense está sendo boicotada pelas duas livrarias Nobel, uma no São Luís Shopping e outra no Monumental Shopping, pois a franquia da Nobel em São Luís pertence à esposa de Flávio Lima, engenheiro e empreiteiro, ligado a Fernando Sarney.

No dia quatro de novembro os autores do livro vão autografar os exemplares do livro que estarão à venda no local.

sábado, 31 de outubro de 2009

Debate quente entre chapas nacionais no sindicato dos bancários do Maranhão


o debate entre as chapas nacionais do PED 2009 no sindicato dos bancários superou as expectativas da comissão organizadora e dos militantes presentes. Mediado pelo cordenador do PED no Maranhão,Silvio bembem,estiveram representadas as chapas Esquerda Socialista, Contraponto, Mensagem ao Partido, Movimento Partido para todos e O Partido que muda o Brasil. O momento inicial de apresentação dos principais pontos defendidos pela tese das chapas foi marcado por um debate moderado sobre os avanços do governo Lula e da necessidade de eleger o sucessor de Lula em 2010. mas o debate esquentou mesmo quando se tratou do tema alianças para 2010 e o tema PMDB elevou o tom do debate. Whasington Luis da Construindo um novo Brasil, defendeu abertamente aliança com o PMDB em nivel nacional e estadual. Ricardo Azevedo criticou a forma submissa com a qual o PT constroe a aliança com o PMDB. Bruno Rogens da Articulação de Esquerda, lembrou que em 1983 o manifesto dos 113 criticava duramente a tentativa de diluição do PT numa frente parlamentar institucional comandada pelo PMDB e questionou: quem mudou? O PMDB? Ou o PT? E por o PT mudou? Dessa forma criticou a concepção dominante de partido eleitoral de massas defendendo um partido militante de massas. Bruno Maranhão da Esquerda Marxista, lembrou a importância de construir as condições para avançar em reformas estruturas no país como a reforma agrária. Márcio Jardim do Movimento PT, alertou para os riscos de uma aliança com o PMDB, sobretudo no Estado do Maranhão o que significa aliar-se com o que há de pior na política brasileira: a família Sarney. Foi um bom começo de debate entre as forças do PT maranhenses que continuaram a debater, agora entre as chapas estaduais e os candidatos à presidente estadual.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Presidente da fundação do sarney sai e vai para o TRE nomeado por Lula



O presidente da Fundação José Sarney, o advogado José Carlos Sousa e Silva, foi nomeado pelo presidente Lula para compor o Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão. Sousa e Silva é também advogado do Sistema Mirante de Comunicação, empresa que reúne rádios, TVs e jornal de propriedade da família Sarney.
A sua nomeação foi publicada no Diário Oficial da União, desta quarta-feira, 28.
Ele concorreu à vaga com os advogados Guilherme Zagalo e Magno Morais, ambos com militância nos direitos humanos. Morais foi secretário adjunto da Secretaria de Justiça e Cidadania, no governo José Reinaldo Tavares, enquanto Zagalo é o atual vice-presidente da OAB-MA.
José Carlos Sousa e Silva vai ocupar a vaga de Nivaldo Guimarães, por dois anos, podendo novamente ser reconduzido para exercer a mesma função na Corte.
Sousa e Silva não foi localizado para explicar se deixaria a presidência da Fundação José Sarney, caso o conselho curador resolva mantê-la aberta.
A decisão sobre o futuro da Fundação deve passar pela Assembleia Legislativa, já que o líder do governo Roseana Sarney, Francisco Gomes (DEM) anunciou que pretende apresentar projeto para que o Estado mantenha a entidade aberta.
Segundo ele, é preciso mobilizar a classe política, a iniciativa privada e o próprio poder público para evitar o fechamento da fundação.
- Temos que fazer alguma coisa para garantir a continuidade daqueles serviços, para que a comunidade do Desterro não se veja prejudicada – disse em discurso na AL.
O desterro é o bairro onde a fundação está localizada, e de acordo com o deputado, ela exerce um papel importante na educação e futuro dos jovens dos bairros.
Na segunda-feira, a jornalista Mônica Begamo, da Folha de São Paulo, revelou que Sarney iria fechar a Fundação diante das dificuldades de conseguir patrocínios depois dos escândalos envolvendo a entidade.
O Ministério Público Federal investiga denúncia de desvios de recursos de um patrocínio com a Petrobrás, no valor de R$ 1,3 mi.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Investigação sobre Fundação Sarney continuará mesmo após fechamento, diz promotor


MÁRCIO FALCÃO
da Folha Online, em Brasília

A decisão da Fundação José Sarney de encerrar as atividades por problemas financeiros não vai anular as investigações das denúncias de irregularidades que estão sendo realizadas pelo Ministério Público e pelo TCU (Tribunal de Contas da União) em torno da aplicação do recursos pela instituição.

O promotor de defesa do Patrimônio Público do Maranhão, João Leonardo Leal, disse à Folha Online que a extinção da fundação não impede que os gestores sejam responsabilizados se os indícios de irregularidades foram comprovados.

"Se houver responsabilidade dos gestores, eles serão chamados independentemente do funcionamento da fundação. A decisão do conselho curador não implica", afirmou.

Leal investiga ao lado do promotor Marcos Valentim as suspeitas de desvio de dinheiro público na aplicação de R$ 960 mil repassados em 2004 pelo governo do Estado à fundação que leva o nome do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

O dinheiro foi liberado por meio de um convênio que previa a "conservação, divulgação e exposição pública" do acervo da fundação. Mas a Promotoria acredita que o dinheiro "não foi empregado devidamente".

Os promotores solicitaram à Secretaria de Estado de Cultura as notas fiscais e comprovantes dos gastos relacionados na prestação de contas da fundação. Há suspeita de que o dinheiro do convênio também foi usado para pagamento de despesas com a Receita Federal, com o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) e com o Ministério do Trabalho.

O Ministério Público do Maranhão também reprovou as contas da Fundação José Sarney entre os anos de 2004 e 2007.

A promotora Sandra Lúcia Mendes Alves Elouf afirmou que o Ministério Público estadual decidiu reprovar as contas da fundação depois de auditoria que analisou as prestações de contas da entidade --que teve início no ano passado.

Ela tinha determinado a intervenção da fundação, mas a decisão foi suspensa porque havia uma promessa do conselho curador ser trocado em novembro.

"Considerando que, após análise da documentação anexada aos autos e do pedido de reconsideração formulado pelo representante do aludido ente fundacional, emitiu-se parecer ponderando sobre os argumentos levantados, concluindo, ao final, pela reprovação", diz a promotora.

A auditoria realizada pelo Ministério Público estadual identificou irregularidades como o uso incorreto de parte da verba da Petrobras encaminhada à fundação --que se transformou em aplicações bancárias.

Fechamento

O presidente do Senado confirmou ontem que a fundação decidiu fechar as portas, informação antecipada por Mônica Bergamo, colunista da Folha. O local reúne o acervo sobre o período em que o atual presidente do Senado ocupou a Presidência da República.

Em nota, Sarney disse que tomou a decisão com "profunda amargura" ao constatar que a entidade não possui mais recursos para se manter em funcionamento --depois das denúncias envolvendo a fundação.

"Essa é a minha opinião, em face da impossibilidade de seu funcionamento, por falta de meios, segundo fui informado pelos administradores da instituição. Os doadores que a sustentam suspenderam suas contribuições, pela exposição com que a instituição passou a ser tratada por alguns órgãos da mídia", afirmou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Livro Bomba... ou, argumentos, morais, jurídicos e poĺiticos pela saída de Sarney da vida pública brasileira


do blog Brasilia-Maranhão: http://brasiliamaranhao.wordpress.com

O livro Honoráveis bandidos -Um retrato do Brasil na Era Sarney é o tipo do livro que o sujeito interessado neste País lê numa sentada.

Não tem como largar. Só larga quando termina. E quando termina fica duas conclusões inevitáveis: primeiro, deveria ser leitura obrigatória para qualquer brasileira e brasileiro, com o mínimo de interesse no que se passa pela nação. Leitura interessante para integrantes do Judiciário.

Depois, se 50% do que contém o livro for verdade, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deveria ser sumariamente denunciado, preso e julgado por traição à pátria e escandaloso enriquecimento ilícito.

Se nada daquilo é verdade, então é o caso de o escritor e jornalista Palmério Dória ser denunciado e preso por enxovalhar, melhor, vamos usar um jargão jurídico: caluniar, injuriar e difamar uma figura octogenária que durante mais de 50 anos colocou a vida, sua juventude e energia pessoal para o desenvolvimento do Maranhão e depois do Brasil.

O certo é que um dos dois não pode ficar impune. Porque o livro é nitroglicerina pura, embora funcione mais como um trailer policial e menos como denúncia política. Ou seja, a começar pelo título, a coisa ali está mais para bandido, para gangue criminosa, do que para um tipo de cidadão respeitável que exerce um cargo público.

O livro é de potencial interesse aos jovens para que leiam, não percam a esperança no País e se interessem pela política no sentido de fazer exatamente o que não está nas páginas de Honoráveis bandidos. Mas o que tem o livro, afinal? Simples.

O livro narra como se fosse o diário da vida de um homem público, a trajetória do senador José Sarney, filho de um desembargador que numa seção eleitoral pegou a urna, colocou embaixo do braço e decretou: “Essa aqui é do Zé”. Os votos foram confiscados para engordar a candidatura do filho, a despeito de quem votou.

O livro vai evoluindo de escândalo em escândalo, de história em história, para a formação de um clã que em primeiro momento toma de assalto um estado, o Maranhão, que o transforma como fazenda habitada por zumbis e porcos e em segundo momento setores da própria nação, nas quais enfia providenciais bombas para drenar o dinheiro recolhido das brasileiras e dos brasileiros, através dos impostos. A influência se estende a quase todos os setores, mas, mais providencialmente, ao setor energético e ao Judiciário.

E este é o começo de uma inglória carreira que tem episódios escabrosos como o Banco de Santos, relações incestuosas com a Rede Globo, a Academia Brasileira de Letras, a Lunus e muitas outras.

O livro revela o tiro que a Polícia Federal deu supostamente a pedido de José Serra na candidatura de Roseana Sarney, flagrando uma montanha de dinheiro no prédio da empresa do marido dela, a Lunus.

De uma paixão não correspondida de Sarney por uma funcionária da Globo ao vício de Roseana por jogos de cartas, as vicissitudes do clã vão desfilando pelo livro como um rosário de impunidade, porque tudo tem como sustentáculo o dinheiro público.

Há declarações pesadas e que deveriam ser investigadas, caso a Justiça fosse levada realmente a sério – contra os poderosos – no Brasil. O ex-deputado tucano Aderson Lago diz: “O pai (de Sarney) não era um fazendeiro abastado, empresário, não era nada. Era pobre, nunca tiveram nada. Nunca acertaram nem no jogo do bicho. Ele (Sarney) mesmo contou, quando presidente da República, na inauguração do Fórum Sarney Costa, que o pai teve que vender sua máquina de escrever para mantê-lo por uns tempos. E hoje (Sarney) é dono de emissoras de TV, de rádios, de jornal, de imóveis, de um patrimônio milionário absolutamente injustificável”. E aí? Quem se habilita?

Há histórias escabrosas – a maioria – e algumas chegam a ser cômicas não fossem humilhantes para os contribuintes, brasileiras e brasileiros. Um sujeito chamado Tauser Quinderê, homem de confiança de Sarney, levava malas de dinheiro para depositar na Suíça.

Numa destas viagens o sujeito tem enfarte e morre. A mala cheia de dinheiro desaparece, pois os suíços também não vacilam. Sarney não se preocupou com a morte do amigo e sim com o sumiço da mala a ponto de ter ameaça de enfarte e ser levado às pressas para o hospital. É engraçado. Mas é triste.

Claro que muitas coisas do livro são conhecidas. O problema é esse. Conhecidas, mas nunca apuradas. Algumas são velhas, como os trambiques no Maranhão. Outras frescas, como a investigação pela Polícia Federal de Fernando Sarney (filho do homem) e a conclusão de que o sujeito montou com a ajuda do pai uma organização criminosa encarregada de drenar recursos públicos.

Descoberta que levou a um dos maiores escândalos do Congresso brasileiro, e terminou em nada porque afinal o acusado controla o Senado como um vampiro controla as suas vítimas. Se querem mais, peguem o livro.

Serviço

Honoráveis bandidos – Um retrato do Brasil na Era Sarney. Do jornalista Palmério Dória. Geração Editorial. 208 páginas. R$ 29,90.